Evacuar deveria ser uma função natural, mas, para algumas pessoas, o momento de ir ao banheiro se transforma em uma experiência de dor, desconforto e preocupação.
Talvez você sinta ardência durante a evacuação, perceba sangue no papel higiênico ou tenha desenvolvido medo de evacuar por receio de sentir dor novamente.
Esses sintomas podem estar relacionados a condições anorretais, como hemorroidas e fissuras anais, que precisam de avaliação médica.
Mas existe outro aspecto que merece atenção: a maneira como os músculos do assoalho pélvico participam da evacuação.
Quando existem alterações funcionais associadas, a fisioterapia pélvica pode integrar o tratamento e contribuir para melhorar a coordenação muscular, o conforto e os hábitos evacuatórios.
Além dos exercícios terapêuticos e das orientações funcionais, recursos como a laserterapia podem ser considerados em situações específicas, como parte de uma abordagem individualizada.
O que são hemorroidas e fissuras anais?
As hemorroidas são estruturas vasculares presentes naturalmente no canal anal. Quando apresentam alterações sintomáticas, podem provocar sangramento, desconforto, coceira, dor ou exteriorização de tecido.
Já a fissura anal é uma lesão na região do canal anal que pode causar dor intensa durante ou após a evacuação, frequentemente acompanhada de sangramento.
Embora sejam condições diferentes, ambas podem estar associadas a sintomas que interferem significativamente na qualidade de vida.
É importante destacar que sangramento anal não deve ser automaticamente atribuído a hemorroidas. A avaliação médica é necessária para identificar a causa e determinar o tratamento adequado.
Qual é a relação com o assoalho pélvico?
O assoalho pélvico participa do controle da evacuação por meio da ação coordenada de músculos e esfínteres.
Para evacuar adequadamente, é necessário permitir o relaxamento das estruturas responsáveis pela saída das fezes, associado a um aumento apropriado da pressão abdominal.
Quando existe dificuldade de coordenação, contração excessiva ou esforço evacuatório inadequado, o processo pode se tornar mais difícil.
Em algumas pessoas, a dor também pode contribuir para o aumento da tensão muscular, criando um ciclo de desconforto e dificuldade evacuatória.
Entretanto, nem toda hemorroida ou fissura está relacionada a uma disfunção do assoalho pélvico. É necessário avaliar cada condição separadamente.
Como a fisioterapia pélvica pode contribuir?
Quando identificadas alterações funcionais associadas, a fisioterapia pode atuar em diferentes aspectos, buscando melhorar a função muscular e reduzir fatores que contribuem para o desconforto.
Entre as estratégias utilizadas estão:
Treinamento evacuatório: orientação sobre postura, respiração e coordenação muscular durante a evacuação.
Biofeedback: recurso que pode auxiliar no aprendizado do relaxamento e da coordenação muscular em pacientes com disfunções específicas.
Consciência corporal: identificação de padrões inadequados de contração e dificuldade de relaxamento.
Orientações comportamentais: estratégias para reduzir o esforço excessivo e melhorar os hábitos intestinais.
Técnicas de relaxamento: quando indicadas, podem auxiliar no manejo da tensão muscular associada ao desconforto.
Laserterapia: a fotobiomodulação pode modular processos relacionados à percepção da dor e da inflamação, contribuindo para o conforto em determinadas condições.
Por que evitar o esforço excessivo?
Fazer força repetidamente, permanecer muito tempo no vaso sanitário ou ignorar a vontade de evacuar são hábitos que podem prejudicar o funcionamento intestinal e contribuir para o desconforto.
Algumas orientações gerais podem ajudar:
- Respeitar a vontade de evacuar;
- Evitar permanecer longos períodos no vaso sanitário;
- Não insistir em fazer força excessiva;
- Manter hidratação adequada;
- Buscar orientação sobre ingestão de fibras e consistência das fezes;
- Procurar avaliação quando os sintomas persistirem.
Essas medidas não substituem o tratamento específico, mas podem fazer parte de um cuidado mais amplo.
Você não precisa sentir medo de ir ao banheiro
A dor ao evacuar pode provocar ansiedade e levar algumas pessoas a adiar a ida ao banheiro, o que pode agravar a constipação e perpetuar o desconforto.
Compreender a causa dos sintomas permite direcionar o tratamento e evitar que a pessoa fique presa a tentativas isoladas de alívio.
Se você apresenta dor anal, sangramento, dificuldade evacuatória ou sensação de bloqueio, procure avaliação com um coloproctologista.
Quando houver alterações funcionais do assoalho pélvico, a fisioterapia pode contribuir para o cuidado integrado, associando exercícios, orientações e recursos terapêuticos adequados a cada caso.
Seu conforto intestinal merece atenção. Evacuar não deveria ser uma experiência marcada pelo medo ou pela dor.
A fisioterapia pélvica pode ajudar você a compreender melhor o funcionamento do seu corpo e a encontrar estratégias para recuperar o conforto e a confiança na sua rotina.
Referências
- European Association of Urology (EAU). EAU Guidelines on Prostate Cancer. Seção de tratamento e reabilitação após prostatectomia.
- American Urological Association (AUA). Incontinence after Prostate Treatment: AUA/GURS/SUFU Guideline. 2019, com emendas posteriores.
- National Institute for Health and Care Excellence (NICE). Prostate cancer: diagnosis and management. NG131, 2019.
Mariana Suaid | Fisioterapeuta Pélvica | CREFITO 356141




